Esperança teimosa de união (fev.2004)

Crianças árabes e judias de Israel convivem juntas em um projeto do Givat Haviva, entidade que trabalha desde 1949 educando para a paz e derrubando preconceitos

Gabriel Toueg
10 min readApr 21, 2021

Por Gabriel Toueg, de Israel*

Uma das pessoas mais interessantes que conheci nesta minha terceira visita a Israel chama-se Lydia Aisenberg. Jornalista escocesa, judia, mãe de cinco filhos nascidos no novo país, ela se dedica há 16 anos à causa do pacifismo e do entendimento entre judeus e árabes. Também é responsável pelo Departamento Internacional do Givat Haviva, entidade fundada em 1949 e contemplada, em 2001, com o Prêmio Unesco de Educação para a Paz.

Foi Lydia a mãe que, certa vez, internou o filho, então um soldado do Exército israelense, no centro de tratamento intensivo de um dos hospitais com tecnologia de ponta do país, o Ranbam. Com o rapaz em coma e desenganado, os médicos permitiram que ela passasse a noite ao lado do filho. Naquela madrugada, outro jovem, quase da mesma idade do garoto e fisicamente parecido com ele, foi internado no mesmo quarto, gravemente ferido, e colocado no leito ao lado.

O filho da jornalista — que depois saiu do coma e acabou por se recuperar — era à época membro de uma unidade do Exército responsável pelo combate ao terrorismo. Por ironia do destino, o rapaz ao lado dele, como Lydia só descobriria pelos jornais na manhã seguinte, era um terrorista palestino, que havia sido ferido ao tentar romper uma barreira de segurança de Israel, justamente num dos locais defendidos por tropas como a do jovem judeu.

Entre as duas camas e em meio à contradição de ser uma pacifista com um filho ferido por terroristas, Lydia entrou em desespero ao descobrir o fato e exigiu a remoção do garoto palestino daquele quarto, temendo qualquer ação contra seu filho. “Ele não precisava nem tentar um contato físico, bastava desligar da tomada os equipamentos hospitalares para fazer com que parassem de funcionar”, comenta a jornalista hoje, anos depois do ocorrido.

Mas Lydia logo se deu conta de que, no hospital, não se fazia diferença entre pacientes: independente de suas origens, aquele era um lugar em que antes salvam-se vidas, para depois tratar de questões de segurança. Ela percebeu, também, o tamanho do dilema com o qual se deparava: lutava pelo fim de preconceitos e paradigmas que, ela mesma, numa situação de estresse, manifestava. Mesmo depois daquilo, com o filho já recuperado, Lydia voltou ao trabalho em Givat Haviva com as convicções de sempre — e que tinha deixado para percorrer a maratona de hospitais e médicos.

No local onde hoje funciona a entidade, os britânicos haviam mantido uma base militar como potência do mandato que reinava a região que em 1948 viria a ser o Estado de Israel. Atualmente, trabalham ali, dedicando-se à paz, indivíduos com as mais diferentes histórias. Por isso, em conversa informal, Lydia me confessa que, não raro, acorda com receio de ser estigmatizada por estar em ambiente que reúne árabes e judeus das mais diversas ideologias. “Levanto a cada manhã correndo o risco de ser classificada de alguma maneira, de ser julgada”, diz. Isso não a impede de seguir.

Crianças árabes esperam o início das atividades de integração num colégio judaico de Haifa, terceira maior cidade de Israel (foto: Gabriel Toueg)

Conhecendo o ‘inimigo’

Estigmatizações sempre prejudicam o entendimento e a convivência. Mas, vendo de perto um dos projetos dirigidos pelo Centro Árabe-Judaico pela Paz, um dos núcleos do Givat Haviva, verifico que a idéia que ele promove é mais forte do que os antigos preconceitos. Em minha segunda visita à entidade, tive a curiosidade de conhecer melhor o trabalho desenvolvido com as crianças. Trata-se do CTC — Children Teaching Children (Crianças Ensinando Crianças, em tradução do inglês). Quatro vezes por ano, alunos da rede israelense de ensino — judias e árabes — se encontram.

Diante da oportunidade de manter contato com jovens dos dois povos que ali vivem e são cidadãos do mesmo país, percebi que, ao menos no que se refere à diversão, as intenções e movimentos não diferem muito. Gostam de música contemporânea, de danças, de futebol e de tudo mais que é comum a qualquer jovem em qualquer canto do mundo hoje. Até a forma de se vestir é semelhante em Jerusalém ou em São Paulo.

Nota-se, no hebraico, uma grande variedade de sotaques, o que é comum num país com vasta presença de imigrantes. Mas é preciso ser sabra (israelense nato) e ter ouvido aguçado para notar se um falante é, por exemplo, um árabe ou judeu russo. E a variedade não pára por aí — Israel é um típico caldeirão de influências num idioma que é tão primitivo quanto arcaico. Embora seus primeiros exemplos escritos datam do ano 1000 a.C., muitos acreditam que o hebraico venha sendo falado ao longo dos últimos 5 mil anos.

As verdadeiras diferenças entre os jovens árabes e judeus, contudo, começam a surgir quando se trata da vida de cada um. O primeiro paradoxo é que, ainda que freqüentando os mesmos bancos escolares, ouvindo os mesmos professores, lendo os mesmos livros e se preparando para os mesmos exames, eles têm concepções de vida um tanto distintas.

A maioria dos jovens judeus-israelenses se orienta pelo pensamento secular. A influência judaica se expressa em atitudes políticas, no patriotismo, no amor que revelam pelo país. Algumas tradições judaicas são encaradas como meros dias de festa, esvaziados de seu significado religioso, tal qual faria um jovem católico brasileiro ao ignorar a origem de datas nacionais e preferir aproveitar o que enxerga como mero feriado. As leis canônicas pouco influenciam no comportamento dessa juventude, que é cada vez mais israelense e menos judia no sentido do peso das tradições religiosas em sua filosofia de vida.

Já os jovens árabes-israelenses mantêm, de forma geral, vínculos mais fortes com as tradições familiares e com as obrigações do Islã. Se vivem em família, não deixam de ser praticantes da religião. É difícil saber se isso acontece apenas por respeito aos pais, o que é característico da vida familiar árabe, ou por convicção mesmo. De todo modo, esse comportamento marcado pela religiosidade se faz presente nas relações com os jovens judeus-israelenses. E, em certos momentos, é uma barreira para amizades mais íntimas.

Dentro de Israel, na população que inclui cerca de 5 milhões de judeus e 1,5 milhão de árabes, muçulmanos na maioria — quase todos com parentes nos territórios administrados por Yasser Arafat ou em outros países pelos quais se espalharam — o diálogo é insuficiente, devido ao peso da fé como crença e como expressão de nacionalismo, de ambos os lados.

Uma das crianças escreve seu nome numa etiqueta, em árabe e em hebraico — os idiomas que separam também podem unir os dois lados (foto: Gabriel Toueg)

Mas, com exceção de árabes que vivem nos poucos centros urbanos israelenses, como Haifa, terceira maior cidade do país, ou Yaffo, extensão da cosmopolita Tel Aviv, eles criam ou mantêm centros urbanos próprios, onde quase não há contato com judeus. Trata-se de fenômeno de difícil compreensão para o brasileiro, que convive com todas as religiões sem que isso tenha quaisquer efeitos em suas amizades. Além disso, podemos observar que, em geral, o brasileiro tem mais senso de humor, enquanto o cidadão do Oriente Médio recorre mais frequentemente à ironia. O primeiro, a meu ver, é a virtude de poder rir até de si próprio. A ironia, por outro lado, com um humor um tanto agressivo, é a capacidade de rir dos outros.

Ouvir as crianças

O encontro que presenciei entre crianças árabes e judeus ocorreu num colégio judaico de Haifa. Era a segunda vez que estavam juntas — haviam se conhecido meses antes na escola das crianças árabes. Muitas delas saíam da sala em que se promoviam as atividades para “quebrar o gelo” e passeavam, em duplas mistas, pelo pátio do local. Do que falavam nunca saberei.

Mas conversando com algumas delas, durante um intervalo, pude entender um pouco de como pensam. Aprendi, nesse breve encontro, que se deve ouvir as crianças para entender o que vai pela cabeça de um povo. Todas as que ouvi, ainda que se mostrassem relutantes aos encontros, admitiram que essa interação poderia até ser frutífera.

Ouvi de judeus e de árabes da sétima série do ensino fundamental local frases que deveriam ser ouvidas por governantes. Uma garota judia, muito tímida, contou que, antes de conhecer árabes, pensava que eles poderiam se explodir durante os encontros. Depois, disse, mudou de opinião. “Não precisamos ser amigos uns dos outros, basta que não nos odiemos”, ela me diz. Muitos acabaram se tornando amigos e aproveitaram o segundo encontro para, espontaneamente, trocar presentes.

“Se não conversarmos, nos falarmos, nunca vamos nos conhecer”, afirma, convicta, uma outra criança, também judia, no inglês que entendo. Ela está convencida de que a paz começa ali. Outra garota, contudo, embora concorde com a importância da convivência, diz não acreditar na existência de um deus ao argumentar, indagando: “com tantas crianças inocentes morrendo, como pode haver um?”. A pergunta dela fica sem resposta no silêncio dos colegas.

Os árabes são menos falantes, mais tímidos que os judeus, mas encontram momentos para manifestar sua opinião. Um garoto árabe explica, em hebraico que me exige tradução, que os encontros “os elevam”. “Só o contato pode mudar o modo como cada parte pensa a respeito do outro”, ele me ensina. Ao redor dele, os amigos balançam a cabeça concordando, mas nada dizem.

Todos eles, árabes ou judeus, tímidos ou falantes, parecem concordar num ponto: é tudo questão de educação. A garota judia que já mencionei defende que, se os árabes fossem educados “como os judeus”, não sentiriam ódio pela outra parte. Um menino árabe, ao lado, sem pregar a supremacia de uma orientação sobre a outra, acredita que a educação é a única forma de acabar com o ódio. O ódio aparece muito nas falas das crianças, o que de certa forma assusta meu olhar brasileiro.

(CONTINUA APÓS A IMAGEM)

Na sede do Givat Haviva, iglu feito de terra por mãos de crianças árabes e judias e usado por elas em atividades de recreação e integração (foto: Gabriel Toueg)

Crianças são crianças. Elas estão abertas a essa aproximação, têm idéias próprias a respeito de como isso é possível. Contribuem com a convivência entre ambos os povos, para a compreensão de como pensam e vivem. E o melhor é que essa atitude está influenciando o comportamento dos pais. Por não serem “viciadas” em dogmas e ideologias, as crianças dizem aquilo que pensam — e dão uma lição nos adultos em casa.

No entanto, mais tarde, essas mesmas crianças que um dia chegaram a se amar, passam a ser vítimas dos preconceitos enraizados. Ainda não se conseguiu reproduzir o sucesso, alcançado com os pequenos, na relação entre os adultos. As pontes criadas, ainda que com tanto cuidado, acabam cedendo.

Tronco de árvore esculpido por crianças de diversas origens com símbolos que remetem à paz, na sede do Givat Haviva (foto: Gabriel Toueg)

Reflexão

De volta à sede do Givat Haviva, Lydia me leva para conhecer alguns outros projetos da entidade. A cada parada, diante de explicações, surge entre nós uma gostosa discussão, uma reflexão dela. Bem-humorada e com forte sotaque escocês, ela mostra orgulhosa um alto tronco de árvore esculpido por crianças judias, muçulmanas, cristãs e drusas, com símbolos que remetem à paz: uma pomba, um coração, uma flor e mãos abertas em direção ao céu, como que num apelo.

A jornalista caminha até um iglu feito de terra por crianças de origens não menos diversas. “Até essa idade elas ainda têm características em comum”, explica, lamentosa.

Ao se verificar o que tende a acontecer, superada a adolescência, compreende-se melhor a dificuldade de firmar diálogo pacífico entre o Estado de Israel e seus países vizinhos, todos muçulmanos. Henry Kissinger, um dos maiores diplomatas do século 20, ensina que, em certas circunstâncias, linhas de separação podem ser uma etapa que leva à coexistência pacífica entre povos, evitando os choques armados e interrompendo processos de conflito.

Sente-se, por aqui, que até pode acontecer um acordo entre Israel e seus vizinhos, mas o entendimento entre os povos, como ensinam as crianças, só será alcançado se houver um mútuo conhecimento dos significados de cada fé e o respeito pela liberdade de cada um de praticá-la sem restrições legalistas. Dentro das fronteiras de Israel, urge promover a coexistência fraterna entre as minorias de todas as fés para que haja uma nação israelense somando povos baseados na convivência natural entre as diversas práticas religiosas. Judeus e árabes precisam definitivamente conscientizar-se de que são, na essência, seres humanos. E dialogar.

Verifica-se um problema semelhante no Brasil, motivado pela separação de crianças entre escolas públicas e colégios privados, nos bairros de classe média e rica e nas favelas: elas crescem para serem diferentes, embora no nosso caso falem a mesma língua e torçam com a mesma euforia pelos mesmos times de futebol. Em minha curta vida de repórter, o que tem me surpreendido é que são mais radicais as diferenças que dividem as crianças brasileiras do que aquelas que observei entre crianças árabes e judias.

Nem entre nós, brasileiros, que temos bom humor — e não ironia — conseguimos desenvolver a fórmula para transformar os atuais confrontos entre os menos favorecidos economicamente e as classes médias, que, temerosas, vivem em edifícios cerrados como fortalezas. Pelo menos disso eu não vejo por essas terras do Oriente Médio.

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*Texto publicado originalmente em 2004 pela revista POSSÍVƎL, publicação bimestral, já descontinuada, da editora Leitura & Arte. A grafia original, anterior à reforma ortográfica do português, foi mantida (palavras cuja grafia foi alterada pela reforma estão grafadas em itálico). Imagens foram recuperadas da versão impressa da revista, por isso não estão com qualidade máxima.

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Gabriel Toueg

Journalist. Storyteller. Former Mideast and Chile, now in SP, Brazil. Freelancer writer. Check my portfolio https://gtoueg.journoportfolio.com/ Translator.